domingo, 22 de maio de 2011

ASAS DE PAPEL

Rafal Olbinski

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nas mãos
vazias de ti
os pássaros
recolhem-se
e vão dormir
vaza o céu
aperta o peito
e o firmamento
acinzenta de frio
...
talvez possas
(dentro de ti)
chegar a mim
em asas de papel
escrever o céu
afagar as águas
ser ave
nas rimas soltas
do meu respirar
talvez possa
(dentro de mim)
chegar a ti
se o vento murmurar
a melodia
dos teus lábios
berço do meu ninho
abrigo
do meu poisar
talvez possas
(dentro de ti)
chegar a mim
moldar versos
no avesso das penas
seguir o aroma
da candeia rubra
que enlaça
este doce voar
...
nas mãos
vazias de ti
solto pássaros
(interjeição
do meu sentir)
e nesse voo firme
asas de papel
levam alto
o clarear
do nosso porvir
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domingo, 1 de maio de 2011

ETERNO

Duy Huynh

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Corrias pelo campo por entre searas inocentes, carregando nos bolsos as histórias tricotadas por asas de sonho. Só repousavas nos braços da pequena montanha, que avistavas da janela do teu quarto. Acreditavas que o céu lhe beijava o rosto sempre que o sol e a lua poisavam a mão no seu regaço. Convicta dessa ilusão, escancaravas os olhos e imaginavas poder abraçar o céu e semeá-lo num pedaço do teu jardim onde as flores teriam o simples brilho das estrelas. Sonhavas poder beber esse azul e navegar pelo céu povoado de ilhas brancas e árvores com asas. O infinito não cabia nos teus olhos, mas ias guardando e cultivando pequenos fragmentos dessa morada... Agora que os teus bolsos se tornaram demasiado pequenos, e as searas ganharam outra cor, já não precisas de correr. Pois as histórias tricotadas por asas de sonho foram crescendo e (sobre)vivem na única morada onde cabe todo esse infinito, o teu eterno coração de mãe...

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quinta-feira, 21 de abril de 2011

ESPERANÇA



Gustav Klimt, Espoir
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quando a noite
chega de mansinho
descalça
com o feitiço das estrelas
e semeia
nas minhas mãos
as palavras macias
do teu rosto...
quando a noite
chega cristalina
nua
com a sede da lua
e amacia
a minha pele
com os versos líquidos
do teu peito...
quando a noite
chega crescente
sibilante
no regaço da brisa
e refresca
os meus sentidos
com a melodia sedosa
dos teus gestos...
quando a noite
chega doce
etérea
com o luar dos teus olhos
e aconchega
o meu interior
com aromas renovados
...
quando a noite
assim chega
faz-se dia
dentro de mim
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Desejo a todos uma Doce e Feliz Páscoa!
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quarta-feira, 2 de março de 2011

VERÃO AZUL

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Duy Huynh, The Dance of Ebb and Flow
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O sol sente o peso dos seus olhos e abraça a noite ofegante. O céu despe o azul e é ninho de pássaros que vêm beber ao nosso mar. Sigo-te passo a passo no compasso desse trinado. Esgueiro-me até ti na espuma de um beijo e aí me demoro de olhar inundado. Elevam-se suspiros em aromas colhidos no doce sentir do teu aconchego. Sinto-me segura nos a-braços que me a-colhem e navego no terno ondular do teu corpo. As vogais mudas dos meus lábios espelham os arrepios das tuas mãos inquietas e sabidas. Os teus olhos revelam-me o verão que emerge da tua pele. Por vezes, levemente, ousamos tocar o solo que se insinua numa rota por traçar. Mas o sol acorda no amanhecer dos pássaros saciados. Afasto-me... só para voltar a ser onda crescida na inquietude do teu mar...
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

SEMPRE QUE...

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Duy Huynh
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Sempre que (não) chove vestes-me nos teus versos... O silêncio escorre-te suavemente pelo rosto. Cada gota doce e molhada do meu nome percorre os teus lábios e invade o teu paladar. Permaneces assim saboreando-as num (e)terno momento. A sede instala-se. O teu olhar mancha o azul cinzento do céu e desejas a tempestade numa chuva de aromas. E enquanto a terra bebe desse mistério, os teus pensamentos soltam-se no arco-íris do meu corpo. A cada passo que percorres, acompanho o teu movimento e sou dança na melodia que a chuva semeia. Posso ir e voltar na frescura que me veste, mas sei que o destino não me deixa ficar. Um duelo em vão que despe apenas gotas de mim, do nosso desejar. Deixo a minha voz na crença deste lacrimejar e quando o sol brilhar só dentro de ti me poderás escutar...
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sábado, 12 de fevereiro de 2011

PÁGINAS EM BRANCO

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Vladimir Kush
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Sou letra nua e atrevida no leito da tua folha de papel. A cada suspiro dos teus lábios deslizo nas linhas mais perfeitas e poiso de asas abertas na textura da tua pele. Não sei evitar as curvas doces e arrojadas dos desígnios que me ofereces. Vejo meu rosto espelhado na tinta incolor dos teus olhos e galgo parágrafos até à fonte da tua inspiração. Soltam-se então os versos num mar de carícias, num púrpura que clama às guardas do céu. E caem gotas feitas letras, um tesouro codificado que me nutre a pele. Num gesto delicado dás forma ao meu corpo em ondas de saber, num doirado que me apazigua e me faz adormecer. Não sei da minha voz. Pouco importa, pois fiz-me poema criado nos parênteses do nosso prazer... Vivo nessa essência agarrada às reticências da história que um dia hás-de escrever...

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

FLOR SEM PÉTALAS

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Vladimir Kush, Morning Blossom
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A aurora despertou num raio de sol embriagado. Nos aromas intensos vestiram-se os verdes salpicados de cores numa paleta por inventar. Insinua-se o murmúrio da pele que nos envolve e as sensações ecoam em folhas de seda. O horizonte é cúmplice atento deste crescer. E entrega-se num manto de luz que inunda o nosso vale. Ao longe insinua-se a melodia do voo, a voz dos pássaros que nos espreitam e aplaudem. De vez em quando são gotas de néctar que bebemos no doce a-braço que nos sustenta. Não cabem as palavras entre nós, apenas versos perfeitos humedecidos no olhar inundado que nos alimenta. Somos rebento nas mãos da terra. Sorrisos por abrir na ternura que a natureza encerra. Não somos partes, somos um todo que permanece...
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sábado, 29 de janeiro de 2011

FALSO ABRIGO

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Vladimir Kush, Romance for Juliet
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Sentia o calor dos teus dedos por entre pautas cruzadas de auroras e luas caídas pelo chão. Portas e janelas entreabertas desafiavam nossos passos, numa e noutra direcção. As palavras eram cordas consistentes onde escalava o mais belo significado do coração. Por vezes, sentia o teu dedilhar como se tivesses trepado à minha janela e descoberto o verso que carece de atenção. Inspirava fundo numa pausa feita lume, acautelando o temporal por detrás dos meus olhos. Ao longe avistava o vulcão adormecido num iminente desejo de acordar. Não temo o seu ardor. Respiro o seu silêncio e sinto na minha mão o viajar do teu sol, numa melodia onde meu corpo dança descalço. Desejos que teimam esgueirar-se por entre as muralhas envidraçadas do falso abrigo do coração...
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domingo, 23 de janeiro de 2011

A ARTE DE SER FELIZ

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Vladimir Kush, Born to fly
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Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

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Cecília Meireles
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

PÔR-DO-SOL

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Duy Huynh
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Fim de tarde... Aqui e além, a natureza entoa o seu merecido descanso carregada pela brisa que se insinua. Na harmonia do entardecer, a frescura da terra acaricia o elenco desse suave frenesim. Imbuída no cenário, deslizavas o olhar no voo da última ave, assídua no seu recolher, e eu inspirava o aroma que te despia, rendido ao desarrumar dos meus pensamentos. As nuvens pareciam querer desenhar-te em fundo azul mas receavam o trovejar da chuva e o retorquir da lua. Emalaste o último raio de sol e partiste. As ruas vazias, invadidas pelas sombras imóveis, eram palco das horas que rolavam nas pedras da estrada. Peguei na mais fina tinta dos meus dedos e criei-te no perfume etéreo do meu soprar, pauta faminta na sede de te (re)encontrar...
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ENTRE CÉU E MAR

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Duy Huynh, The Wishing Window
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Adoçavas os minutos a cada momento que me olhavas. Era receita secreta que só tu sabias adornar. Conhecias os ingredientes do meu respirar, como a ave cativa do céu que bebe o azul do mar. Enquanto as luas desciam, fechando-me a janela do teu rosto, colhia com delicadeza o brilho das estrelas que te trazia pela frescura da manhã. Ancorado a cada movimento teu, o sol nascente vestia o doirado da tua pele e polvilhava de ternura o desabotoar dos teus segredos. Fervilhava em mim essa tua invasão em recantos por descobrir. E saboreava assim cada minuto, em dose certa cravada no meu peito. Nos meus lábios mora teu nome, sílabas que se agitam no prazer aprimorado do teu expressar...
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domingo, 2 de janeiro de 2011

ESSÊNCIA

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de palavras se veste o tempo
são silêncios os gritos
que afloram a mente
são rebentos que nascem
nos olhos luzentes
em gotas de orvalho
nos enleios de sempre
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de sorrisos se enfeita o tempo
são bocas ardentes
que sopram teu aroma
na frescura da pele nua
são flores que crescem
nas mãos que despem
melodias de estrelas cadentes
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de desejos se ilude o tempo
são destinos agrestes
nos contornos que despes
são asas aladas
dos pássaros que falam
a linguagem da alma
em forma de gente
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

UM BRINDE...

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... A TODOS ...
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS

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Gustav Klimt
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Junto à lareira, baloiçavas na cadeira tocada pela voz do tempo. As chamas oscilavam atrevidas e luziam nas franjas do manto onde teu olhar se perdia. Crepitavam memórias frias, feitas lume, na palma das tuas mãos vazias. Meus olhos de menina cresciam em cada página dos teus pensamentos, ainda que não soubesse ler o silêncio, as letras incolores e transparentes das tuas memórias. Dia após dia, num intento de menina teimosa, desafiava a minha vontade...
Naquela noite, entrevi pensamentos teus. Alguns espraiavam-se pela sala, afagavam-me o rosto e eu sorria; outros escondiam-se nas velharias adormecidas nas cómodas tisnadas da pequena sala: numa brincadeira de criança, fingia que não os via... Quando teus olhos tocaram os meus foi o degelo resfriado em lume extenuado. Logo percebi que esses eram pensamentos só teus...
Então, abriguei-me no teu colo. O lume parecia sossegar e entoar melodias filtradas nas frestas do nosso presente. Envolveste-me no teu manto e, nesse momento, no teu olhar luzia a chama mais doce do teu pensamento, uma candura que não se lê no papel. Adormeci como um anjo...
Lá fora, também a lua, no manto da noite, aconchegava o brilho das estrelas até ao reacender da madrugada...
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

DESEJO...

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... A TODOS ...
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Ache essas e outras imagens no site Mensagens & Imagens

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sábado, 11 de dezembro de 2010

PALAVRAS AO VENTO

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Duy Huynh
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Nos atalhos que percorrias ias colhendo as pétalas do teu sentir. Aconchegavas uma a uma no mais belo recanto do teu ser. Por vezes avistavas a incerteza dos teus passos. E as brumas traziam-te pedaços de ontem, o anseio do amanhã. Mas perseguias o teu instinto. Na efemeridade do caminho sabias que a flor se ia vestindo. A brisa encorajava-te. E os teus sonhos iam criando raízes nos aromas da terra.
Traiçoeiro, o vento irrompeu, desnudando o teu viver. Olhaste-o... Uma gota incolor e perfumada deslizou do mais belo traço do teu rosto. E afloraste um sorriso tímido: na cegueira do seu sopro, não vira que tinha semeado o teu jardim na terra.
Ainda hoje, da janela do céu, regas os sonhos, numa chuva de palavras ao vento...
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

FLORES DO DESERTO

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Duy Huynh
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mãos padecem
nos segredos da lua
quando a noite é o dia
nos vazios da pele nua
mãos gritam
nas lágrimas da terra
quando um coração de oiro
liberta a vida que encerra
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mãos (só) engrandecem
nas atitudes do mundo
quando o sol beija teu rosto
numa gota de céu profundo
mãos (só) germinam
no espelho dos teus olhos
quando no enlear da tua dor
nasce um oásis em flor
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mãos versejam
no deserto da tristeza
quando no silêncio da alma
não há uma só palavra
digna da tua grandeza
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ASAS PARA SONHAR

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Duy Huynh, Dreaming under the moth moon
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silvam asas de borboleta
no tapete turquesa do teu sonho
teu corpo imerso
dormente
abriga-se nessa viagem
nos versos que voam
no alar da tua mente
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sopra-te o luar
na sede desse acordar
mas teu desejo
vestido de púrpura
teima fugir ao tempo
e entrega-se à sonolência
cúmplice desse amar
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no descarrilar das horas
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o silêncio
príncipe do teu olhar
é sombra que te aquieta
é seda agreste
que agita
o teu poisar
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a natureza
oculta teu pulsar
no leito que te sustenta
e no sigilo das estrelas
é refém do doce silvo
do teu balbuciar
...
só mais uma vez
deixa-me sonhar
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

VESTIDA DE BRANCO

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Vladimir Kush
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naquele entardecer
vestiste a terra de branco
ocultaste as veredas
e adormeceste
em gélido manto
meus pés
frígidos e trémulos
sentiam tua alvura
cristais vacilantes
caídos
do azul cinzento do céu
em passo lento
tocava-te a alma
e derretias lentamente
oferecendo-me
o arrefecer
do meu lamento
sem perceber
tracei o caminho
de regresso
e nas pegadas
que te desenhei
nasceu um jardim
passajado
em poema de cetim
onde danças
branca e leve,
branca e fria
até mim
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percebo enfim
a natureza é palco
e como a vida
no calor gélido das palavras
há quem a semeie
com olhos de alecrim
na voz emudecida
de sonhos sem fim
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sábado, 27 de novembro de 2010

ILUMINA-ME

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Vladimir Kush
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laços enleados
aos tons frisados
do teu cabelo
tombam nos ombros
e aquecem
os tórridos sonhos
crescidos nas árvores
que no passo do tempo
florescem
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colhes uma estrela
perdes o céu
uivos de escuridão
gemem no horizonte
das mãos que amanhecem
no pingar trémulo
da antiga fonte
o pranto do fumegar
solto da tímida
lareira acesa
esboça tua silhueta
no céu rasgado
e sem estrelas
perante a sua dor
penduras as pérolas
do teu sonhar
no pinho mais firme
e nesse intento
os laços enleados
aos tons frisados
do teu cabelo
prendem-se nos ramos
atrevidos e desalinhados
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sorris à lua
e coras no olhar dos anjos
que soltam asas
e iluminam
o firmamento
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